Ramalho Eanes louva Joaquim Letria

Artigo publicado em "nascerdosol.pt"
 
Um Homem de Intransigência Democrática, por António Ramalho Eanes
 
A morte de Joaquim Letria constitui uma perda profunda para o Portugal democrático e para a cultura da informação livre. Neste momento da partida de uma das figuras mais distintas e marcantes do nosso jornalismo, importa recordar que os maiores entre nós não morrem verdadeiramente; permanecem na memória colectiva, no exemplo ético e na forma insigne como serviram o País. A República e a democracia são-lhe devedores, pelo seu papel decisivo no processo revolucionário e na consolidação de uma imprensa rigorosa, independente e pluralista.
Conheci Joaquim Letria após o 25 de Abril de 1974, nos conturbados tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), na caixa de ressonância do país que era a RTP, para onde fora convidado por Álvaro Guerra devido ao seu reconhecido mérito profissional. Viviam-se tempos difíceis, em que os poderes políticos partidários tentavam apossar-se dos meios de comunicação social, instalando, neles, homens da sua confiança. Havia, então, como que uma subserviência partidária entre os jornalistas, o que, aliás, de alguma maneira, se percebe, dado o afastamento das oposições da opinião pública e o tratamento dispensado pelo anterior poder político aos jornalistas.
Nesse ambiente de extrema perturbação e forte pressão ideológica, Joaquim Letria – recém-chegado da BBC (onde trabalhou entre 1970 e 1973) e com prestígio firmado no Diário de Lisboa, na Associated Press, no Rádio Clube Português, na Flama e no Expresso – decidiu erguer, contra ventos e marés, uma informação televisiva de excelência, jornalisticamente correcta e intransigentemente subordinada aos valores humanistas e à verdade.
Numa altura em que tantas personalidades vergaram ou cederam à facilidade dos mimetismos ideológicos, Joaquim Letria revelou a têmpera do seu carácter. Assumidamente homem de esquerda desde a juventude – tendo sido militante do PCP no liceu, líder da comissão pró-associação e dirigente de greves estudantis –, recusou, terminantemente, ser arregimentado por partidos ou conceder favores políticos que pudessem beliscar a verdade factual. A sua independência era inegociável. Jamais se amedrontou perante manifestações ruidosas ou ameaças de facções extremadas.
Ficou célebre o episódio em que, perante uma ruidosa manifestação do MRPP à porta da RTP, que o apodava de «social-fascista», recusou sair de carro, fazendo questão de enfrentar a rua a pé. Da mesma forma, no dramático 11 de Março de 1975, quando regressávamos de uma reunião do MFA (Movimento das Forças Armadas) e fomos confrontados com uma multidão hostil a exigir a minha «cabeça», acompanhou-me a pé, sem hesitar, nesse difícil percurso.
Como entrevistador, Joaquim Letria introduziu no ecrã um modelo de frontalidade e exigência. Tratava os interlocutores com urbano respeito, mas formulava perguntas directas e incómodas; perante respostas evasivas, repetia a mesma questão tantas vezes quantas as necessárias, independentemente do estatuto político ou social do entrevistado.
Essa fidelidade à função social do jornalismo valeu-lhe perseguições e incompreensões. Quando foi demitido da RTP, no período do General Spínola, por causa de um programa incómodo, fiz questão de esperar-lo à porta de casa, para o convidar a regressar à televisão e restabelecer uma informação isenta. Mais tarde, quando apresentei a minha demissão da direcção da RTP, após o 11 de Março, e em pleno clima de suspeição, Joaquim Letria esteve, ostensivamente, presente no jantar de despedida que os colaboradores da RTP me ofereceram, desafiando, sem receios, o clima inquisitorial da época.
A sua energia criadora levou-o, depois, a novos e audaciosos empreendimentos. Foi um dos principais fundadores e director de O Jornal – projecto inovador de extraordinária relevância sociocultural e política, que marcou a imprensa democrática em Portugal. Recordo, com viva emoção, a visita que me fez no Posto de Comando na Amadora durante o 25 de Novembro de 1975, cuja presença me trouxe incontornável alento. Anos mais tarde, quando o projecto de lançamento do diário Diário da Manhã abortou, devido a desentendimentos empresariais, demonstrou a dimensão da sua dignidade profissional ao aceitar, sem qualquer complexo de grandeza, regressar ao trabalho de rua como repórter da ANOP.
Tive o privilégio de contar com a sua estreita colaboração na Presidência da República. Após ter sido decisivo no apoio à minha candidatura – preparando a minha adaptação aos debates de televisão, às intervenções na rádio e à linguagem dos comícios –, aceitou o melindroso cargo de Assessor de Imprensa e Porta-Voz de Belém. Joaquim Letria reestruturou, com eficiência, os serviços de comunicação da Presidência, produzindo análises diárias da imprensa que antecediam as tendências da opinião pública e previam a evolução dos processos mediáticos. A sua cultura cosmopolita, a sua intuição analítica e o seu conhecimento rigoroso da política internacional foram apoios determinantes na tomada de decisões sensíveis e na preparação das viagens de Estado.
Joaquim Letria pertenceu àquele raro escol de cidadãos para quem a profissão é um dever ético e a cidadania uma exigência permanente. A sua memória evoca, com propriedade, a máxima de Ernesto Sábato, que ele próprio apreciava: «Há uma maneira de contribuir para a mudança, é não se resignar». Foi recusando a resignação, combatendo o comodismo e servindo a verdade sem concessões que Joaquim Letria escreveu uma das páginas mais brilhantes e honradas do jornalismo e da democracia portuguesas.

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